sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ereta na cadeira rígida da biblioteca, Clara sente algo. O rapaz contempla seu ídolo com duas sementes vistosas, a que ela retribui com única mas gigantesca gema de esmeralda. Ele estava perdido. Não por estar longe de casa e sim por não conhecer o mar. Ela sentia frio, e o frio a endurecia mais e mais. Tudo dentro do seu corpo congelava. Logo compreendeu que acabava ali. Seu pensamento não foi outro além de "como estou cansada de prestar sempre contas à razão!" Mesmo assim, esperou até a exaustão naquela estranha brincadeira de imitar ossos. Depois, resolveu participar de um filme que contava uma história de fantasmas. Dois roteiristas e o diretor aguardam por ela. Algum tempo depois, Clara está sendo empurrada por eles para dentro de uma água profunda e negra. O diretor pergunta: Você está com medo? (Ela não está) Eu morri - responde. Estou morta.
O ator coadjuvante se aproxima sem pensar e intui que tudo seja um sonho. Clara lhe dirige um olhar de predador em direção à presa, depois fala calmamente: Pode ser o sonho de vocês, não o meu.
Um inexplicável pavor começa a crescer dentro de todos da equipe de filmagem... Eu continuo sentada olhando para a tela, que cambia entre tons do cinzento de um céu de fumaça. Pouco a pouco então levanto o meu corpo e dirijo ele para a minha casa. No caminho não encontro nada. Apenas um vento suave e uma chuva silenciosa de maio.

“Camêlo assado!” Ismália num grito agudo, doído. ”É tão bom quanto dromedário, mas rende mais porque tem duas corcovas!” Como se assustaram diante da pequena, encolheram-se os velhos num recuo tremido, um por cima do outro, sujos da terra. E porque estava quase nua aos farrapos de filó, meias esticadas até os joelhos, num espaço cheio de farpas, Clara notou petrificada que as mudas precisavam respirar. ”O que acha?” perguntou o bêbado de camisa marrom. “Sinceramente, eu acho que cabe a cada um comer ou não comer aquilo que não for bastante casto” - a resposta. Os outros três cavalheiros, ela imaginou que estivessem com frio. A mesa foi posta onde a sombra não incomoda, e então a atriz se serviu de joelhos. Um riso de ver o que tinham através das bolinhas de gude com as mãos atadas, mas estendidas, como as de sedentos levando uma cabaça vazia.Ismália repetia dentro “Deo gratias”. Não ousava se mexer, nem gritar. O irmão, de longe, descobria o horror da fome. Tudo era permitido onde crescia a relva. “Como assim?” a lua se perguntava. “Que estavam fazendo?” Estavam todos muito famintos. Ele trazia pitangas no bolso. Ofereceu uma delas a si mesmo. Uma cereja ou três gemas são apenas duas imagens, pensou. Dizendo isso, cuspiu o caroço sobre as meias que fantasiaram o queixo pontiagudo. Converteu-se em máquina de descaroçar ali no terreiro, esperando, enquanto os bichos, tão pequeninos, estavam ainda com muita fome.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Fotografia

O fim da vida é como o
fim do dia.
você acha que vai
amanhecer,
e vira fotografia.

(Gabriel da Matta)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

lírica métrica
química cínica
dúvida sórdida
sílaba gélida
tóxica estética
tímida atlética
fábula sádica
júbilo púbico
rústico sátiro
trêmulo búfalo
áspero ctônico
sólido crônico
xícara última
nítida enfática
pálido cético
lápide tétrica
rápido óbito
século mórbido

(Aline Pereira)


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sexta-feira, 8 de abril de 2011

A maquina de descaroçar



Nunca entendi como funciona a máquina de descaroçar, embora saiba que a moral cheia de caroços não basta... os meninos da escola estudam as sementes o tempo todo. Só um peixe que tenta adivinhar o oceano arranca do desepero uma gota de esperança.

(Aline Pereira)


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